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quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

A Festa de Babette

O Cineclube Oscarito, da cidade de São Paulo, organizou um ciclo de filmes denominado “A Comida no Cinema”. Entre eles, um cujo o tema do vinho revira-se é um clássico:

''A Festa de Babete'' , clássico que fica para sempre na nossa memória estética de quem o assiste e o seu artigo vai longe na apreciação dessa grande obra de todos que até hoje ouvi comentar .

O fato de assistir apenas agora ao filme também me fez parar para rever conceitos martelados pela miltância ecoxiita moderna: fico a imaginar se hoje em dia as críticas não se concentrariam muito mais nos ingredientes do banquete [tartarugas marinhas, as codornas do caille en sarcophage, uma cabeça de boi] do que na sua qualidade “enquanto cinema de arte”. Vivemos numa época em que celebridades ecologicamente engajadas sentem-se à vontade para atacar colegas de profissão apenas porque a outra não é vegetariana, e eu realmente não acredito que isso seja boa coisa. Mas enfim, é um dos filmes mais delicados que eu já vi – por cenas como o prazer em cozinhar com ingredientes de primeira – e saber que o silêncio na sala corresponde à comunhão de todos com o sublime sabor dos pratos.

"Festa de Babette" tornou-se um sinônimo de boa cozinha.
Um resumo Por Pedro Sobrinho:
O filme é ambientado na Jutlândia, Dinamarca. Duas das personagens centrais, as irmãs Martine (Birgitte Federspiel) e Filippa (Bodil Kjer) viviam sozinhas, celibatárias por opção, inteiramente dedicadas à continuação da obra piedosa e evangelizadora do seu pai e mestre. A insólita chegada de Babette (Stephane Audran), no frio inverno de 1871, alterou sensivelmente o cotidiano das duas irmãs. A partir de então, as irmãs passaram a contar com uma criada francesa para todo o serviço doméstico, liberando-as para cumprir melhor a missão apostolar e caridosa junto aos fiéis e desamparados da pequena cidade.
Martine e Filippa haviam sido, quando jovens, objetos da paixão de dois homens bem diferentes, porém semelhantes na pureza e força do amor dedicado a cada uma das irmãs. E também pela perturbação que elas causaram nos seus espíritos. A mais velha, Martine, coube perturbar o espírito e frustrar as intenções do jovem oficial Lorens Löwenhielm (Jarl Kulle). A Filippa coube fazer o mesmo ao impetuoso e decidido cantor lírico francês Achille Papin (Jean Phillippe Lafond), que ao descobrir por acaso seus dotes vocais, pensara com ela formar o mais sublime dueto de cantores que Paris jamais conhecera.
Babette Hassant é apresentada às irmãs (Martine e Filippa) através de carta de Achille Papin. Nela, em seu nome, pede que a hospedem. O trecho final é lacônico: Babette sabe cozinhar.
O infortúnio que causou a fuga de Babette foi motivado por sua participação nas barricadas, junto aos revolucionários da Comuna de Paris. Fora acusada de “petroleuse” (incendiária), presa e milagrosamente salva do massacre perpetrado pelos generais Galliffet, Cavignac e outros contra os comunardos. Mais de 20 mil pessoas foram mortas nas ruas de Paris naquele trágico ano de 1871.
Acolhida pelas piedosas irmãs, Babette de rápido aprendeu a fazer a sopa de cerveja com pão, servida aos velhos e desamparados da cidade. A receita era simples: uma porção de pão colocada numa tigela com água e cerveja; após algum tempo, passava-se a mistura numa peneira e levava-se ao fogo para cozinhar. Além disso, lhe fora ensinado como cortar e cozer bacalhau em pedaços. As inovações feitas por Babette nas peças do humilde cardápio foram logo sentidas pelo seu público, que não só passou a satisfazer o estômago mas a exercitar também o prazer do gosto.
A narrativa de Gabriel Axel vai, pouco a pouco, destacando a partir daí o motivo central da trama: a discussão sobre a arte na sua relação com o criador e o público. A gastronomia como arte interativa, não só enquanto combinação dos sentidos (gosto, olfato, audição, vista e tato), mas por que nela os atos de criar, fazer e apreciar estão intimamente relacionados, prestou-se melhor ao tratamento do tema via discurso cinematográfico.
Com o decorrer dos anos de convívio com as irmãs, a França vem a ser para Babette uma simples lembrança. Um bilhete de loteria, renovado todos os anos por uma fiel amiga, é a única ligação que mantém com o país de origem. A notícia de que havia sido premiada pela sorte, com 10 mil francos, fez renascer nela a vontade de criar e dar vazão às emoções ao longo de doze anos reprimidas.
Ao receber a notícia, as irmãs Martine e Filippa ficam profundamente preocupadas com a possibilidade da perda de Babette, agora, em relação a elas, uma pessoa rica. O ano não estava nada fácil para a seita que abraçaram. As desavenças entre os poucos fiéis comprometiam a obra do seu pai e mestre. Pensam num jantar comemorativo do seu centenário como motivo para reconfraternizar os fiéis pela lembrança dos ensinamentos do mestre, renovando-lhes a fé e a esperança. Pensam pedir a Babette que ficasse até 15 de dezembro, o dia festivo.
Babette antecipa-se, no entanto, às irmãs e oferece-se para preparar o jantar: não seria apenas mais um jantar, mas ao estilo francês e pago com o seu dinheiro. O motivo era oportuno para o artista manifestar o poder de sua criação em mais uma obra. Para ela, enquanto gastrônomo, era ainda uma obra incompleta, pois lhe faltava o público, o apreciador percuciente. Afinal os membros da seita eram gente pobre e humilde, de gosto rude e limitado.
À medida que se aproximava o jantar um cortejo de iguarias desfila na tela. Todas encomendadas na França. As irmãs, cuja convicção puritana leva a considerar a comida como fonte de pecado, ficam preocupadas. Temiam que o dia do mestre fosse transformado por Babette num “sabat de bruxas”. Para evitar qualquer ato impuro, os fiéis foram orientados a não pronunciar uma única palavra no jantar, sobre a comida e a bebida; limpando da língua todo o paladar, desprezando o deleite e o prazer dos sentidos.
Os convidados agora eram doze. O então general Löwenhielm, que há trinta anos não visitava a tia, chegara inesperadamente. Para ele essa visita significava um ajuste com o passado. Queria finalmente comprovar o acerto da sua escolha de juventude: ao refrear sua paixão por Martine e tomar a decisão de esquecê-la. O jantar não seria mais do que um pretexto.
Mesa posta. A câmera de Axel movimenta-se captando os convivas em conjunto e isoladamente. No semblante dos convidados a revelação da sua apreensão interior. Nos fiéis o temor do pecado. No general as lembranças do passado, a desconfiança da comida sem o prazer da mesa.
O serviço é francês. Os pratos foram servidos um de cada vez, seguindo rigorosamente a indicação de Grimod de la Reyniére: cada prato deve ser o centro único em torno do qual gravitam todos os apetites. De início, a sopa de tartaruga; a câmera revela, em primeiro plano, a surpresa e a satisfação do general ao degustá-la. Acompanhou as primeiras entradas um amontillado, vinho Jerez de cor âmbar, seco e fortificado, de origem espanhola. O fecho das entradas foi o “Blinis Demidoff”, que leva o general ao quase êxtase, além do espanto ao verificar que ao seu redor nenhum dos convivas demonstrava a menor emoção. Acompanhou o prato um Champagne Veuve Cliquot 1860. Pelo semblante do general, ao sorver os primeiros goles, esse vinho era de uma safra excepcional.
Ao observar que tinha à mesa um apreciador, Babette orienta ao seu ajudante de serviço cuidados especiais com o general. Seu copo não devia ficar vazio. Tinha naquele conviva de última hora, a oportunidade do reconhecimento cabal da força de sua magia. Nada mais conveniente do que citar o aforismo de Brillat-Savarin: “Os animais pastam, o homem come: apenas o homem de espírito sabe comer”.
As iguarias foram servidas uma após a outra, num ritmo que impedia qualquer sobreposição de pratos. A câmera enquadra de cima para baixo os pratos, realçando o fascínio e seu domínio sobre os convivas, e, ainda, sua beleza e plasticidade. Cada plano compõe um quadro a ser emoldurado. Dos pratos principais o destaque para o “Cailles en Sarcophage”. Este prato, um assado de codornizes ao forno tendo como envoltório uma massa, imobilizou o general. Suas lembranças, pouco a pouco, o transportaram a Paris. Um jantar que lhe foi oferecido no Café Anglais onde lhe serviram aquele prato, criado por uma mulher. O maior gênio culinário do momento e chef de cuisine do restaurante. O Café Anglais era considerado, segundo Jean-Paul Aron, no seu livro “Le Mangeur du XIXe Siècle”, ao lado do Philippe e do Durand, uma das melhores casas de repasto de Paris, à época. Fora consagrado com a cotação máxima: trois astérisques.
Depois dos pratos principais, os queijos; em seguida, as sobremesas doces e as frutas (tropicais e temperadas). Após o café, um cognac superior, um fine champagne.
A prima donna do jantar foi o Champagne, mas um tinto servido também mereceu referência especial: um Clos Vougeot 1846, do Philippe, na Rue Montorgueil. Este vinho é um Borgonha, originário dos vinhedos da Côte de Nuits, bastante apreciado à época, aparecendo nas cartas de vinhos de restaurantes famosos em Paris, ao lado dos Romanée-Conti, Chambertin, Mouton-Lafitte, Chateau-Margot, Chateau-Latour, entre outros. Todos considerados até hoje como excepcionais tintos franceses.
Acabada a festa, tudo mudara. A câmera de Axel percorreu o semblante de cada conviva, revelando uma satisfação e um gozo quase celestial. Transportara para o cinema o clímax descrito no livro de Isak Dinesen: “O tempo em si tinha se fundido na eternidade. Bem depois da meia-noite as janelas da casa brilhavam como ouro, as canções douradas fluíam para o ar invernal”.
Os dez mil francos ganhos na loteria foram dissipados. Nada no entanto a lamentar, era o preço normal de uma refeição para doze pessoas no Café Anglais. Esse jantar marcara o retorno triunfal de Babette ao cenário artístico, com pleno domínio de sua arte e técnica. Como antes, pudera transformar um jantar “numa espécie de caso de amor, de categoria nobre e romântica, onde não se faz mais distinção entre o apetite e a saciedade do corpo e do espírito”. Retornar a Paris, nunca. Seu público não mais existia. Restava-lhe porém uma certeza: era uma grande artista, e “um grande artista nunca é pobre, pois tinha algo que as outras pessoas desconheciam”.
O filme de Gabriel Axel, A Festa de Babette, pode significar para o autor um dilema: a exaustão de sua capacidade criativa. A partir dele é difícil a superação, a exemplo de Juan Rulfo com seu romance Pedro Páramo. A gastronomia, o cinema e seu público sentem-se contudo plenamente lisonjeados e satisfeitos.