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quinta-feira, 31 de março de 2011

Ponto De Vista De Um Enólogo!




Segundo Mateus, que é enólogo no Brasil,formado em enologia pelo IFRS de Bento Gonçalves e Filho de viticultores,questiona-se sempre do verdadeiro papeldo vitivinicultor para com a sociedade, com as questões sociais e ambientais.

''Será que é só o de produzir vinhos e agradar aos que o bebem? Para alguns viticultores, este é o único objetivo, para outros, valores como preservação do meio ambiente e segurança alimentar são tão importantes quanto à qualidade de um vinho.''

Um pouco aqui da realidade de um enólogo, cujas reflexões revelam algumas realidades e opiniões:


Por Mateus V.


Os viticultores são, por muitas vezes, limitados a fazer o que dita o mercado, a atender a uma demanda comercial, deixando de lado seu talento artístico. É de certa forma uma frustração. Às vezes me pergunto por que conhecemos apenas quatro variedades de uvas? Cabernet Sauvignon, Merlot, Chardonnay e Sauvignon Blanc. Conhecemos mais, é claro, mas comercialmente, são as cultivares preponderantes. Estima-se que exista em torno de 10.000 variedades de uvas no mundo entre todas as espécies.

Deixamos de refletir as conseqüências da viticultura atual sobre a erosão genética das espécies, causado principalmente pelo desinteresse por aquelas que apresentam “menor” aptidão enológica ou menor rentabilidade econômica, ocasionando até mesmo o extermínio de algumas variedades. Tudo isso em prol de algumas dezenas que apresentam maior interesse comercial. O triste é, que o mercado exige que se produza o que se vende, então toda esta biodiversidade é reduzida a poucas variedades. Não é só desmérito da viticultura, mas de toda a agricultura. Um exemplo é a maçã. De modo geral não conhecemos mais do que dez variedades, quando se sabe que existem em torno de 7500, algumas delas, hoje, existentes apenas em bancos de germoplasma.

Fiquei sabendo de um “louco” viticultor do Vale do Loire que praticava o cultivo mínimo em suas videiras. Não fazia a poda, muito menos adubação e tratamentos fitossanitários. Cultivava uma variedade local chamada Grolleau Noir, uma uva ofuscada pela sua conterrânea de maior apelo comercial, a Cabernet Franc. Ela é comumente usada para elaboração de vinhos rosés, espumantes, e tintos de pouco valor agregado, porque existe um consenso de que esta uva não dá vinhos de prestígio. Aquele “louco” queria traduzir o terroir em sua forma máxima fazendo o mínimo. Tanto no vinhedo, como na vinificação.

Acredita ele que a expressão máxima do terroir, se obtém com as videiras mais próximas de seu estado selvagem, por isso utilizava uma uva autóctone, e minimamente cultivada. O vinho eu não cheguei a conhecer, mas a filosofia deste produtor era invejável. São poucos os que abrem mão do business em prol de uma ideologia. Certamente era um vinho fora no normal. Infelizmente, não suportou a pressão do mundo que o rodeava, não chegava a produzir o mínimo suficiente para sobreviver, caiu na depressão, vendeu a propriedade e mudou de ramo.

Os vitivinicultores também são vilões do meio ambiente e da perda de biodiversidade. O que os redime em parte, são os efeitos benéficos do consumo moderado do vinho à saúde. Outro ponto positivo é que há um grande interesse por métodos de produção menos impactantes ao meio ambiente. Estima-se que em 2050 o mundo enfrentará um desafio para alimentar os 9 bilhões de seres humanos e a desvantagem do vinho nesta circunstância, assim como todas as bebidas alcoólicas, é que elas não são essenciais à sobrevivência humana, e para isso, a viticultura terá de ceder um pouco de sua área ao trigo. Com isso, teremos quem sabe que desestimular o consumo de vinho, e estimular a produção de alimentos. Se for para produzir menos e melhor eu topo!

Sobre o autor:
Filho de viticultores, formado em enologia pelo IFRS de Bento Gonçalves. Possui um diploma de Master II Europeu pelo "International Master Vintage". Sempre atuando como enólogo, realizou estágios na Califórnia e em várias regiões da França. Hoje trabalha como enólogo no Brasil.