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segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Humor: O Chato ''Gastrô''!

                                                                           (''Só Ilustração'' - Nádia Jung )


       ''Achar que todo italiano é um bom gourmet e um sommelier de classe é como acreditar que todo brasileiro é bom de bola e sabe fazer a melhor caipirinha do mundo. Invariavelmente, o chato gastronômico é a mesma pessoa que comenta sobre a gravata errada do personagem no melhor do filme e te faz perder o fio da meada.''





Chato Gastronômico ▬

Hum… Tá faltando uma pitadinha de syrkol seco.

 ▬ Diachoé syrkol? 

▬ É um fungo que nasce sobre as raízes dos carvalhos no oeste do Canadá. E só lá.

 ▬ Pra mim tá bom assim mesmo. Algumas pessoas têm a capacidade de estragar momentos mágicos com um único comentário inocente. No início você nem percebe, mas lá pelo terceiro tempero que falta, a luz vermelha que identifica a chatice começa a piscar e não para mais. Certa vez vi uma mulher jogar os talheres no chão e – visivelmente enraivecida – comer um filé com as mãos. A cena, ao contrário do que se poderia imaginar, provocou um alívio geral no restaurante: o acompanhante dela tinha passado o jantar inteiro corrigindo-a e se lamentando de tudo. À mesa corremos o risco de deixar transparecer que o processo de civilização ainda há muita estrada a percorrer. Ou muito feijão com arroz a comer. Comportar-se de maneira educada diante da comida imóvel é – no mínimo – sinal de superioridade e inteligência, mas os exageros provocam risinhos pelas costas e escárnio dos últimos a sair. Ser diplomático não chega a salvar a vida de ninguém, mas pelo menos garante-se o convite para o próximo jantar. Na Itália se diz: “chi si acontenta, gode”; ou seja, quanto mais exigente for o paladar, mais difícil será satisfazê-lo. Sou um que se contenta com a simplicidade e vou elogiar o seu jantar. Convide-me e comprove.

 Há algum tempo uma mania que se alastra rumorosamente pela Itália vem devorando a minha paciência: os falsos especialistas. Achar que todo italiano é um bom gourmet e um sommelier de classe é como acreditar que todo brasileiro é bom de bola e sabe fazer a melhor caipirinha do mundo. Invariavelmente, o chato gastronômico é a mesma pessoa que comenta sobre a gravata errada do personagem no melhor do filme e te faz perder o fio da meada. Ou seja, chato é chato em qualquer ocasião, mas quando o chato de plantão é, também, um gastrônomo farsante, o risco de estragar o meu jantar e a minha paciência pode me levar a usar o vidrinho de cicuta que trago sempre escondido para tais ocasiões. Tudo isso como preâmbulo de um único pedido. Aliás, uma súplica aos mais exigentes: deixem-nos comer em paz! Ofereçam os vossos conhecimentos aos vossos semelhantes e riam de nós. Somos pessoas simples e não nos chateamos. [Sei que não estou sozinho nessa mesa.] Eu realmente me contento com pouco e não tenho um paladar refinado.
Aprecio comida simples (elogio até salada de chuchu) e não tenho o menor interesse em saber que ingredientes compõem o prato que você me servirá. Sim, fiz muitos cursos com os diversos consórcios de produtos típicos italianos, Slow Food, Piacenza Food Valley, escolas de hotelaria e tantos outros organismos, mas aprecio quem aprecia a simplicidade. Ostras cruas? Basta que sejam frescas, sal e limão.


Quem quiser algo mais sofisticado, que vá jantar no oeste do Canadá. E fique por lá.



 PS – Aldo, vivo sonhando com gnocchi de mandioquinha da Virgínia.